Aurora ou Outrora

Bate meia noite,
O corpo já aposentou-se
Ou nem tanto.
Agora ou outrora?

Bate o dia na janela,
Ouve-se um cão na porta.
Lá fora o mundo, que passa,
Pergunta avulsado:
— Agora ou outrora?

E se agora, diga-me as horas;
Se outrora, não mais me diga.
Não reporte ao mundo
E deixe-o no agora dos ponteiros
Enquanto eu, num copo de Bukowski;
Num romance da Goethe a Carlota.
Agora ou outrora?

Mas e se a escolha não me bastar?
E se a indecisão tomar conta?
E se ela dança sem eu dar-me conta,
Ou mesmo até o avesso disso...,
"Serei eu sacristão perene destas portas?". Logo penso.


Mas das lágrimas, veio outra meia noite,
E com ela, um contrato:
Que o corpo não se aposente,
E as escolhas sejam escolhas,
Sem a âncora da dúvida presente;
Sem muito outrora, agora!
Sem féretro.
Viva.