Cartas Para Clarice I
Olá, Clarisse. Os dias aqui em Sermondes estão, como sabes, conservando a sua monotonia. Nada mudou. Tudo anda caminhando da mesma forma, com a mesma tristeza; as pessoas continuam felizes, vivendo e sorrindo nos espaços de convivência, mas tudo me é cinza. Concluí, então, que a tristeza não habita na essência dos assistidos, mas sim na de quem os assiste. Saudades, Clarice.
Gostou das fotos que eu lhe enviei? As freguesias daqui são cenários encantadores. A tranquilidade simples e verde presente no entorno do Convento de Arcozelo, o calor pungente das praias de Canidelo e o pôr do sol solitário nos montes gelados de Avintes são inexplicáveis. Tudo ridiculamente lindo, belo e triste. Ainda se encontra em Recife? Trocaria todos os cenários pelo vislumbre do pôr do sol no calor do Recife Antigo, sentado a mesinha, com a Maribel fazendo sombra na sacada. Ela ama aquela mesinha mais do que ama nós dois. Deve ser por causa da brisa que vem do Pátio São Pedro, ou do tempo que a gente passava alisando ela mais do que conversava. Saudades dos miadinhos e dos rosnados, e também dos seus arranhados.
Cada carta enfatiza mais a saudade... A sacada. A vista. O gato. Você. Estou cada vez mais decidido. Eu nunca fui pra lugar nenhum, eu estive aí o tempo todo. Saudades, Clarice.
Crônica iniciada em agosto e finalizada em dezembro.
Comentários