João Gilberto
Na tentativa de elaborar uma crônica sobre um indivíduo de alcunha Torquato, sujeito de muitos vícios e pouca fé em mudanças, me vi impossibilitado de prosseguir. Lembrei de João Gilberto. Ontem foi o seu aniversário póstumo de 90 anos, compartilhei umas coisinhas relacionadas a ele nas redes, mas me sinto no dever de registrar mais uma expressão de minha admiração. Creio que vale seguir o extinto.
Conheci o trabalho do João já no final da sua trajetória de vida. Enquanto assistia incrédulo e atento as apresentações ao vivo de "Pra Quê Discutir Com Madame" e "Eu Vim da Bahia", numa infinita repetição, João passava por problemas familiares sérios; enquanto eu devorava álbuns, shows antigos, artigos, e afins relacionados ao mundo artístico do mestre, numa euforia escalonada, João passava por problemas de saude inerentes ao que já tinha de idade. Ao mesmo tempo em que me descobri, e de repente me vi, imerso no universo novo de sua arte, acompanhei como pude também o fim da sua história.
Nesse período, consegui encontrar grupos nas redes de admiradores do João que tinham como integrantes não só pessoas que já o conheceram intimamente, bem como integrantes que são de sua própria família. Felizmente, fui adicionado às redes do filho do mestre, o grande Marcelo Gilberto, e posteriormente também às da sua esposa, a Adriana. Ambos figuras muito queridas.
Na época em que o João ainda se encontrava entre nós, ambos frequentemente falavam em suas redes a respeito do estado dele; vez ou outra o gravavam num momento despretensioso... Um vídeo que nunca esquecerei do mestre ainda em vida, é um dele com a netinha (Sofia) no colo fazendo carinho, olhando-a com um olhar fixo. O João devia morrer de amores por aquela menina. É triste saber que ele não conseguiu viver a vida de vovô que queria ter vivido, ao lado da netinha. A vida é mesmo uma gota de orvalho.
E em 6 de julho de 2019, um nome dito no jornal não me soou estranho. Parei o que estava fazendo e tentei ouvir a notícia, mesmo estando longe da televisão. O jornalista falara o nome de João, anunciando o seu falecimento. Naquele momento eu me espantei em desespero. Entrei nas minhas redes e vi uma postagem da Adriana reforçando a tal infelicidade. Eu nunca me senti triste ao ponto de chorar profundamente por alguém, mas naquela hora, ao me deparar com o fato da partida do João, me vi chorando compulsivamente, mesmo estando próximo da minha mãe (Que fingiu não notar o meu choro suspiroso e contido, creio eu, pra tentar aliviar um pouco a tensão do momento).
Chorei por um milhão de motivos. Chorei porquê o Brasil perdia um artista que o revolucionou; chorei porquê senti que o João se foi incompleto e negligenciado, cheio de vontades de cunho pessoal não concretizadas; chorei porquê o Marcelo perdeu um grande pai, a Adriana um sogro querido, a Sofia o melhor avô do mundo e eu (Somando-me a todos os outros admiradores assíduos do mestre) uma referência. Até hoje esse dia não me desce. É um dia, uma notícia recebida e um choro chorado pra deixar no esquecimento.
Me conforto em saber que, apesar de sua partida ainda tão breve, o João segue sendo ponto de referência. E nunca vai deixar de ser. O João é o retrato do nosso povo, a personificação do que tem de melhor no sangue latino presente em cada brasileiro que tem orgulho de ser brasileiro. Em meu íntimo, o João mais que mudou a forma de como eu tocava violão, escutava música brasileira ou via a vida... O João resgatou em mim o orgulho de ser brasileiro. Serei eternamente grato a ele por isso.
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