Metrópole

Daqui de cima eu posso ver muito. Daqui os raios de sol entram, e os lunares também. Daqui, desta janela, dá pra ver os mendigos da Praça Vermelha, as prostitutas da viela Rodolfo Goulart, o beco de ambulantes lá na Jânio Quadros... todo o comércio da metrópole que respira (Com aires distintos).

Me pego pensando muitas e muitas vezes, daqui de cima, o que os de lá estão a pensar, e sempre caio em decepção; logo volto à realidade enquanto o café esfria. Acontece que por aqui tudo acontece, tudo cresce, tudo dá e tudo nasce e renasce. Metrópole, Estado brasileiro: bem me quer ou mal me quer?

A propósito, falando em café e realidade fria, percebi que pouco conhecia meu vizinho da janela da frente. Sempre, quando me avistava, nada falava. Nunca soube seu nome, nunca soube se tinha cônjuge, nunca soube se tinha filhos (Pois nada de lá ouvia). Só conhecia de longe sua reputação enquanto advogado conhecido, como também a convenção social dos seus olhos quando avistavam os meus pela janela: se desviava a outro cômodo, num lapso, por mando de seu dono. É fato, e certo, que a cortesia não é o forte de muitos homens. Fato é também que, nesse caso, não a cortejo.

Momentos depois ocorrido, num lampejo no tempo, tudo fez-se cinza e o céu desabou-se em gotas. O tempo parou, a metrópole prendeu o fôlego, e como se fosse um corpo, caiu em lágrimas. Aquilo não era chuva, eram lágrimas... de quê? Não sei. Sei apenas que, enquanto as gotas eram barulho por todos os cantos, das frestas da minha janela fechada, dava pra ouvir aqui de cima o barulho dos lá de baixo.

Um evocava um canto, outro proferia um "glória" e num espanto breve, o barulho de um tiro abafado. Um barulho vindo não lá de baixo, mas vindo da frente da minha janela. Um barulho que logo calou-se e deu espaço à sinfonia que lá embaixo ainda ocorria, bailando tragicamente na minha eterna dúvida, na terra que tudo dá e tudo nasce e renasce, na certeza do retorno da esperança.

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